segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Verdades Minhas, Impertinentes, Eu Sei!

A Vida, para qualquer mortal, é apenas algo insuportável. Todos nos deixamos submeter às Leis de Mercado, tão-somente porque o dinheiro compra todos os ópios e são eles, os ópios, que nos ajudam a continuar nesta estrada cheia de poeira – uma estrada que, já sabemos, não vai dar em nada. Não se iluda! Quando digo que tenho por você imenso apreço, quero dizer que gosto de entrar em transe – gosto de viagens psicodélicas! Você é mais uma espécie de ópio que eu descobri nos cinzentos becos da metrópole, onde vivo "Esperando Godot", pois em tudo sou livre, exceto no que se refere às leis de mercado!
Paulo Neuman


Outras Mulheres-Joanas!


Outra Mulher-Joana na Bela Vista?


Outra Mulher-Joana no Campo Limpo?


Dizem que por trás de um grande homem, existe sempre uma grande mulher, talvez por isso existam tão poucos “grandes homens”, uma vez que a grande maioria das mulheres ainda se dão por satisfeitas no papel que historicamente lhes tem sido reservado! Mergulhadas no clássico universo perigosamente cor de rosa - rosa choque, transformam seus homens em meros provedores, em falsos príncipes encantados! Falsos Príncipes, sim - pois todos já sabemos que príncipes encantados não existem: todos os homens, feios e bonitos, vencidos pelo peso brutal do papel que lhes foi reservado, viram lobisomens quando é noite de lua cheia! Bem-aventuradas são as poucas mulheres que têm descoberto que o tal príncipe nunca existiu! Felizes são aquelas mulheres que têm podido ouvir vozes vindas do além – vozes que as transformam em sujeitas de suas próprias histórias, ajudando, assim, a construir uma sociedade verdadeiramente civilizada, livre dos contos de fada! Uma sociedade onde homens e mulheres, juntos, comam do mesmo pão e bebam do mesmo vinho!

JARDINS DAS MENTIRAS

Se um poeta eu fosse, falaria dessas mulheres
São todas parecidíssimas - meras cópias
De guarda-sol cor de rosa, correm pelos jardins
Colhem uma flor aqui, outra ali, batem palmas!

Jogam beijos pretensiosos ao vento desembestado!

Os beija-flores, atormentados, saem de cena - do jardim
Assim que percebem tais presenças! Eles são tão pequenos!

Não posso enxergar Alice entre tais mulheres misteriosas
Ociosa é a vida para que corram pelos jardins das mentiras!

Se um poeta eu fosse, buscaria entender essas mulheres
Seres alados - arrastam suas presas a lugares indecifráveis!

Quintais de infância - castelos que transcendem o tempo
Sempre arrastando seus longos vestidos de fino tecido cor de rosa!

Definitivamente, não sou poeta! Difícil é falar dessas mulheres!
Seres alados a nos arrastar para quintais suspensos e infinitos!

Penso em Alice, muito além do espelho! Dormindo feito anjo!
Lindíssima e necessária e apaixonada e utópica e mulher e irmã!

Que nada! Eu não sou poeta! Nada sei falar da mulher!
Ser alado que nos transfere para outra dimensão lilás
Aliás, nenhuma mulher é igual à outra cópia idêntica!


Coração de galinha, de leoa, vaca sagrada e profana
Ana, Maria, Joana, Angélica, Mariana, Lúcia, Luana
Seres alados que nos levam a lugares ditos sagrados!

Vou-me embora deste jardim esquisito! Aqui não está a doce Alice!
Esqueço os jardins e me caso com Alice Maria em maio!

Da janela do meu quarto, abraçado a Alice, vemos nossa filha seguir rumo ao jardim!

Eu e Alice, muito além do Espelho Mágico
Nunca houve uma mulher como Alice!

Luana, Joana, Madalena, Maria, Luciana, Catarina, Lídia
Cláudia, Lúcia, Camila, Fátima, Glória, Esmeralda, Lunai
Capitu, Débora, Marina, Luzia, Mariana, Ana, Vitória

Beatriz, Luísa, Carolina, Antônia, Conceição, Tânia, Raimunda
Diana, Patrícia, Elis, Leila, Loreta, Lupina, Laura, Maria Clara
Marieta, Rafaela, Eva, Estela, Airam, Zenilda, Vanessa, Roberta
Joaquina, Antonieta, Regina, Ivana, Josefina, Ana Carolina!

Ainda são todas muito meninas
Em seus jardins suspensos!

Textos Paulo Neuman/Fotos Adrebal Lírio

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Perguntas Outras!


Paulo, para você, o que é a Vida?
A Vida é um perigoso e, às vezes, eloquentemente divertido louco-beco sem saída! Uma fascinante e imoral viela – cachaça docemente perversa que desce goela adentro, sem deixar, sequer, nenhum rastro de prazer ou não-prazer! Trago nas cicatrizes/tatuagens do meu corpo/espírito o mapa do inferno – a anatomia da dor! Não preciso mais mergulhar nos sofisticados tratados filosóficos em busca das tais respostas – pois eu mesmo só a tal metafísica e é em mim, este paupérrimo mortal, que se dá o fascinante e doloroso mistério da existência: Vida, Morte e Ressurreição!
Nasci incrivelmente cego – nunca fui capaz de enxergar um palmo adiante do meu nariz cheio de meleca! Não conheço o discernimento! Nunca conheci o tal do bom senso! "Só sei que nada sei" - na maioria das vezes que tento conhecer-me, fico sabendo que sou nada! Noutras, tenho medo do que me mostra o espelho sádico! Num processo, sofisticadamente esquizofrênico, construo um Universo Paralelo repleto de imagens perigosamente coloridas - Cores Vivas Pedro Almodóvar – numa insana tentativa de vencer a escuridão existencial, pois, para mim, estar na vida é, inexoravelmente, estar também já dentro da morte! Sorte mesmo têm aqueles que nunca haverão de entrar neste mundo. Quanto a mim, só me resta aprender a criar Universos Paralelos dentro dessa Imensa Escuridão, pois a vida é mesmo um Ensaio sobre a Cegueira e nem mesmo o Cinema haverá de trazer a tão decantada sublimação! Vou seguindo repetindo a célebre e banal frase: “Ser ou Não Ser – Eis a Questão” – sabendo que Hamlet não conhece mais nada que não seja ele próprio, porque Hamlet é docemente Narciso! Condenado estou a ser quem sempre fui e essa consciência me traz a libertação em meio às dores e o prazer do ser e do não querer ser – ainda assim, com tanta ambivalência, vou descobrindo o que o poeta há muito já disse: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Agora, já ciente de que a vida é mesmo assim, espero não ser mais considerado culpado pelo fim trágico de
Ofélia!
(Foto Adrebal Lírio - Texto Paulo Neuman)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sublimação Inútil


Nunca Mais: Paradoxos
Depois de TUDO - sinto-me tão desgraçado, tão tolo, tão contraditório - sinto-me o mais infeliz e o mais alegre e o mais bêbado e o mais radiante de todos os homens - sei que sou louco e não quero que ninguém repita o que todo o mundo já sabe - quero os poetas malditos e quero um porão para viver em paz - quero você que a vida me tirou para sempre e quero, também, mais um Carnaval daqueles que só os loucos conhecem. Quero gritar até morrer e partir para uma cidade que não é cidade, mas eu amo São Paulo e amo todos que andam por aí sem maiores ambições - mas é necessário o porão para aquecer o grupo - junte-se a nós, caramba! Por que você não chega logo? Sua ausência é o que nos angustia! Onde você está? Iremos buscá-lo, seja no Paraisópoles ou no Morumbi! Não podemos partir para o Porão sem você!

Paulo Neuman

Fotos Adrebal Lírio

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Crenças Outras!

Em que eu acredito? Eu acredito na Declaração Universal dos Direitos Humanos! Acredito, também, como me ensinou Tom Zé, que, entre a Augusta e a Angélica, eu haverei de encontrar a Consolação! Eu acredito em Hamlet, o Angustiado Príncipe da Dinamarca! Acredito que Eu e o Pai podemos ser Um! E, por fim, acredito que muitos de nós já estamos na Idade do Perfume: Paradoxos Absolutos!
Paulo Neuman


quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Outros Becos!






Becos, Bares, Avenidas, Todos os Lugares!

Ruas, Avenidas, Prédios, Devaneios do Arquiteto!
Outros Rios e Riachos que nos trazem dependência!

Pendências Existenciais a serem resolvidas!

Independência ou Morte - que a sorte venha!
Dependências Químicas! Memórias Biológicas!

Creio que não há mais lenha a ser queimada!
A brasa virou carvão e o chão é asfalto!

Trato de manter vivas todas as possibilidades!
Quem Sabe?! Todas as Tardes, Todas as Manhãs...Tudo!

Todos os Tempos já são, agora, Sonhos de Uma Noite de Inverno!
Paulo Neuman

A História Somos Todos Nós!


Que as histórias de quaisquer brasileiros possam fundir-se com a própria História do Brasil a ser reescrita conjuntamente pelos cidadãos brasileiros – sujeitos de suas próprias histórias! Que tenhamos uma história de fato orgânica – não mais uma lenda cheia de falsos heróis! Mas para que tal SONHO torne-se realidade, faz-se necessário a existência de mecanismos que visem equipar nosso Povo, transformando-o num Povo capaz de reinventar sua Pátria - onde todos, quem quer que seja, tenham voz – experimentando, assim, uma Real Cidadania! Que cada Brasileiro possa sentir-se parte integrante deste imenso mosaico chamado Brasil – isso sim seria uma verdadeira experiência democrática!
Paulo Neuman
mocrática!


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Outros Objetos Tridimensionais





Cão de Rua e o Estandarte da Agonia!

Não são Bárbaros, porque já são Doces!
Assim como uma Cereja Maduro-Vermelha!

Todos os Espelhos Foram Violentamente Arrebentados
Não São mais Narcisos Deslumbrado-Aquáticos!

Agora, tão-somente Mergulhos Dionisíacos e Vermelhos!
Quando Emergem com Feridas Outras, evidentemente!
Mas, também, com todas as Respostas Necessárias!

As Feridas
agora são Tatuagens Tribais e Prova de Coragem!
Hoje, feito Meninos Levados, brincam de Arnaldo Antunes:
Fabricam Poemas Tridimensionais pelos Becos da Metrópole!
Paulo Neuman

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Outras Perguntas


- Paulo, para você, o que é o "Fazer Poético"?

- Para mim, fazer Poesia é Correr Riscos: Riscos Semânticos e Morfológicos e Sintáticos e Existenciais e Risco de Vida! A Matéria-Prima utilizada na fabricação da Minha Poesia é a Minha Ignorância em Estado Bruto - Uma Ignorância Que Não Conhece o Caminho da Lapidação!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Minicontos Outros (Paulo Neuman)

MAMÃE DOLORES
Agora que casa lotérica também é banco, as filas são quilométricas, onde se pode ouvir de tudo um pouco! Uma senhora falava ao filho, um moleque com cara de CDF, óculos enormes, o rosto cheio de espinhas - deve ter uns dez anos, suponho! Sua querida mamãe lhe falava de como a grana anda curta e que ele deveria esquecer essa ”idéia pródiga” de ir para o Hopi-Hari – pois ela não tem dinheiro. Também alertava o moloque para que ele não abra a boca se, no domingo, forem (ele e a mãe) à casa da Tia Célia - o moleque não pode jamais falar “daquele assunto” que só os dois sabem – sob pena de levar um "couro" ali mesmo na casa da Tia Célia! Na parede da Lotérica há um retrato de Dolores Duran! O Menino, indiferente ao alerta da mãe, de olhos fixos no retrato, diz: Veja, mãe: - Aquela Cantora se parece com a senhora! Era uma foto de Dolores Duran num Programa de Rádio! Além de eu ficar bastante curioso sobre o que o moleque não podia falar na casa da tal Tia Célia, também me intriga muito aquela fotografia de Dolores Duran numa Casa Lotérica que agora também é Banco e as Filas São Quilométricas!

PARADOXOS ANGÉLICOS

Agora, ele já tem 28 anos. Não é Capitu, mas tem os “olhos de ressaca”, sim! O Pai foi embora quando ele ainda era um bebê. A mulher dita fatal e armada até os dentes mordeu a língua do pai do menino: Derradeiro Beijo! Deus queira que ele, o Pai, no céu esteja! Se o Pai não tivesse sucumbido ao decote da mulher que carrega na mão direita a Foice, hoje o Menino-Anjo-Pornográfico seria um Anjo de Outra Natureza – Tudo seria diferente: O Menino não se colocaria no mundo como Mercadoria, ensinando a quem queira aprender que agora quase tudo já é Bem de Consumo – Divaga o poeta Utópico que o vê passar viçoso e esguio e camisa jogada no ombro e o cós da Cueca Kalvin Klein à mostra e meio ingênuo - mas ele, o Anjo Pornográfico, diz-se Mercenário! Talvez seja ele, o Anjo Pornográfico, um "Bom Complexo de Édipo Mal Resolvido" - Na casa do Anjo, todos: mãe, irmãos e até seus cães acreditam ou fingem acreditar que o Anjo não é um Anjo Pornográfico – e o poeta que o observa passar se pergunta: - Como pode um Anjo Ser Pornográfico, se os Anjos Não Têm Sexo?!

São Paulo Cainã

Foto Adrebal Lírio

São Paulo, Monóxido de Carbono

São Paulo, Sampa, Paulicéia Desvairada!

Derrama Monóxido de Carbono em Nossos Sonhos-de-cada-dia!


Em nossas veias já não corre mais sangue!

Agora, monóxido de carbono!

Ainda assim,

haveremos

de te amar até o fim, Querida Sampa!


Em nossas veias não corre sangue! Agora, monóxido de carbono! Ainda assim, não te abandono, nem hoje nem nunca, Paulicéia!


Somos TODOS Monóxidos de Carbono!

Vazio Concreto!


Meninos e Meninas - Seres Urbanos, Filhos do Monóxido de Carbono!

Meninos e Meninas que Bebemos Tuas Bienais Envenenadas!


Espaço Vazio, Um Novo Conceito em Arquitetura!



Somos todos São Paulo, Somos Brava Gente - Desbravamos todos os dias a Selva de Pedra!


Espaço Vazio e Vazio e Vazio e Eu e Nós!
É o Vazio - Nele eu Acredito!



Em teu útero, escondidas, ainda há pérolas, Gente de todos os cantos, sotaques e senhas!


Sonho-Concreto, São Paulo, Sampa, Paulicéia Desvairada!

Poesia feita de utopias, pesadelos e ferro, pedra e fé!


(Paulo Neuman)


quarta-feira, 30 de julho de 2008

Boa Nova em Verso e Prosa (Paulo Neuman)


Sou um Homem Pós-Moderno! Acredito tão-somente em Espaços Vazios e os acho bonitos (Os Espaços Vazios)



Boa Nova - Em Verso e Prosa!

Um dia fui apenas a "boca do mato" - Hoje, trago em meus braços todas as matas remanescentes!
Ainda trago em minhas entranhas matas de um verde que só em mim existe!
Meu céu é de um azul inusitado, onde moram estrelas outras!
São únicos minhas cachoeiras e riachos!
Subindo ou descendo a ladeira, tenho o mesmo rebolado!
Tudo em mim é singular! Em mim há todos os carnavais inimagináveis!
Meu povo e sua linguagem são os benditos frutos do meu fértil ventre!
Em mim, somente em mim, mora o senso de humor!
É assim: sem abrir mão da minha essência, que deixo entrar em mim todas as revoluções: Culturais, Tecnológicas e tantas outras...
Sou a Boa Nova! Boa Nova em Verso e Prosa!
Trago em mim todas as esperanças!
Sou aquela que dança conforme a música:
Samba-de-roda ou rock pesado! Merengue ou forró!Tango ou valsa!
Lambada ou qualquer tipo de arrasta-pé!
Sou a Boa Nova no mundo! Tudo em mim faz parte de uma História Universal!
Tenho fé no Futuro! Trago a chave dos mistérios!
Tenho fé no Passado! Sou a Boca do Mato!
Sou o ontem! Sou o amanhã! Hoje, sou Boa Nova.com
.*.*.*.

No Princípio, a Boca do Mato - O Povoado, uma Gente em formação!
No Coração da Mata, a Gênese... E a História não nos abortou!
Caminhamos com passos bem firmes rumo ao Futuro!
Juro, pelas Pedras do Cruzeirão, que não seremos excluídos do mapa!
Traga, querida Pastorinha, a Nossa Saga em Verso e Prosa!
Mostra ao Universo, Imperiosa História, Nosso Passado, Presente e Futuro!
Sim, somos um Povo de sorte: Sobrevivemos às tempestades!
Nossas Pastorinhas transcendem o óbvio e o sol brilha!
Nosso Povo acende a Chama da Revolução e Caminha com Passos Firmes Rumo ao Futuro!
Juro, pelas Pedras do Cruzeirão,
Que seremos sempre um Povo em constante mutação,
porque, como disse o poeta: "O Tempo Não Pára".


O Bexiguento
A Baixa do Bexiguento - Um Conjunto de Cacimbas num Lençol de Água a banhar a plácida Boa Nova, lavando-lhe as possíveis culpas. "Água Encanada" ainda não havia! Num sobe e desce pelas ruas, sobre a rodilha, lata d'água na cabeça!- Mulheres de pele bronzeada e ginga ímpar; assim, apresenta-se o exótico-belíssimo desfile daquelas que, dia após dia, das águas misteriosas do Bexiguento tiram o sustento, enchendo as caixas d'água dos mais abastados!Em meados da década de 1970, Boa Nova passa a ter a tão sonhada "Água Encanada"! Na "inauguração da água", um improvisado Carnaval: com "mangueiras", fazem-se jatos d'água que, numa inesquecível dança das águas, lavam as ruas de paralelepípedo, em meio a muita algazarra e "batida de limão": são as boas-vindas ao progresso.Chegou a "água encanada" e nunca mais nossos olhos se deleitaram com o encantador-exótico desfile daquelas que nos davam a água-nossa-de-cada-dia: Florisa, Odete, Danga, Eurídis, Diomésia, Dona Maria Vitória... ...É o fim de uma era!

Tributo a Osório e Suas "Caretas"!
É Fevereiro, com ele a alegria que só o verão pode trazer! A cidade recebe antigos moradores que por algum motivo resolveram mudar-se! É tempo de férias! É Carnaval! A Casa de Osório, com a conivência de Bezinha, tornar-se o Quartel General da Grande Folia! Parece que todos estão na Veneza de 1680, mais precisamente, no Carnaval de Veneza, quando um bocado de mascarados invadem as ruas, numa festa meio pagã, meio cristã! Osório, na sua peculiar irreverência, põe seu bloco de mascarados nas ruas boanovenses. Caretas que perseguem crianças assustadas e, ao som do tamborim e do pandeiro e do triângulo e do diabo-a-quatro, fazem a cidade sair da sua rotina. É a comédia dell’arte que, agora, tem as ruas de Boa Nova como palco principal! É a década de 1970, quando, hoje eu sei, Osório era um Agitador Cultural!Mais bela que essas lembranças de infância só mesmo a clássica canção de ninar:“Boi, boi, boi da cara preta pega essa criança que tem medo de careta!”

Dona Simplícia
Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores!Toda cidadezinha do interior há de ter a pracinha da matriz, lugar mais que preferido dos namorados! Toda cidadezinha do interior há de ter o seu rio e cachoeiras para onde todos fogem nos dias ensolarados de verão! Toda cidadezinha do interior há de ter seu clube social, onde acontecem as Grandes Festas! Tantas coisas são comuns às Cidades do Interior, mas em Boa Nova há algo que só lá podemos encontrar: trata-se da Casa de Dona Simplícia! Falar da Casa de Dona Simplícia é o mesmo que falar da própria Dona Simplícia: Espaço e Pessoa se fundem numa mesma Coisa Bonita de Se Ver! Desde sempre, Dona Simplícia vive na Idade do Perfume! Sua Casa não fica no centro da cidade. Escondida em um beco periférico, a Casa de Dona Simplícia traz de volta todos os Sonhos Esquecidos! A Pureza de Alma da Pessoa espalha-se pelo lugar que a poesia agora chama de Casa de Dona Simplícia! Margaridas florescem no limpo quintal, como limpo é o Espírito de Dona Simplícia! Volto aos meus Quintais de Infância e neles adquiro a certeza de que se passarmos a estudar na Cartilha Simpliciana, haveremos de ver brotar, em nossos quintais existenciais, as Ninféias que Monet tanto amou! É no Quintal de Dona Siplícia que podemos aprender que todos os Espaços deste Mundo podem ser invadidos pelo Perfume que haverá de mudar o curso da História! Que todas as janelas sejam abertas para que o vento, generoso que é, traga o perfume oriundo dos Quintais Simplicianos!

Dona Maria-José e Seu Casarão!
Uma senhora de pele alvíssima, piedosa como uma judia ortodoxa! Sim, uma mulher sempre pronta para ajoelhar-se diante de tudo o que é sagrado! Uma mulher que parecia viver sempre no Tempo da Delicadeza, de sua boca nunca se ouviu uma palavra torpe! Uma Senhora a quem os mais novos, com profunda e verdadeira reverência, faziam absoluta questão de lhe pedirem a bênção e ela, tendo Deus como cúmplice, abençoava a todos nós!Sim, Dona Maria José morava num antigo casarão situado na avenida Nossa Senhora da Boa Nova. Um casarão com amplas salas de assoalho que ela, generosamente, cedia para que Márcina e Télia realizassem seus “dramas”! Sim, isso mesmo, dramas! Esse era o nome que se dava às produções teatrais de Márcina e Télia na década de l970 na doce Boa Nova! Ah! E aquela onça pintada na parede da sala de jantar! Era uma Onça Sinistra! Eu morria de medo! Mas a doce presença de Dona Maria José parecia deter a fera que ameaçava pular da parede e encravar suas unhas em meu pescoço! É, meu caro! Bons tempos aqueles! Hoje, quando muitos de nós parecemos bichos ferozes, prontos para destruir quem, mesmo com razão, contradiz nossos interesses! Hoje, quando as relações sociais são tão esquisitas, a doce lembrança de Dona Maria-José faz toda a diferença!

Baoa Nova e os Recém-Nascidos: Pirão de Galinha!
Um Homem! Uma Mulher! Por meio de seus corpos, surge um novo corpo: É o Espectáculo da Procriação que a Engenharia Genética, com avidez e muita ousadia, busca entender cada vez mais, para melhor manipulá-lo! Fecundação! Procriação! - Um Novo Ser Humano chega ao mundão, e essa fascinante chegada é motivo de festa, muita festa para os que aqui já se encontram! Palmadinha no bumbum – o bebê bota a boca no mundo, anunciando que uma Nova Vida começa! Um Brinde á Vida! No Mato Grosso do Sul, esse evento é festejado com grande festa, onde parentes e amigos bebem o “xixi do bebê”: generosos copos de uísque falsificado, comprado na divisa com o Paraguai. Mas em Boa Nova, a chegada do bebê é brindada com a Autêntica Temperada: uma fusão de aguardente das boas com diversas ervas nativas: losnão, erva-doce, cidreira, capim-santo, pra-tudo, fedegoso, hortelã (miúdo e graúdo), alumã, etc... Para comer, o Pirão de Galinha Caipira, regado a generosos goles de temperada! E viva a vida! A festa começou! Cachaça Temperada e Pirão de Galinha com um milhão de calorias: iguaria que faz lamber os beiços de tão apetitosa que é. Nesses momentos únicos, é esquecida a tal estética da magreza/leveza do ser, que se torna um projeto insustentável em meio a tamanha farra! Nesses momentos o que importa mesmo é a Chegada do Bebê! Muita Cachaça Temperada e Muito Pirão de Galinha Caipira e Louvado Seja Deus!

GonçaloSertãoRosaBoaNova:Veredas!
Fazer Incursões Históricas é garantir a certeza de um Futuro-Luz para aqueles que acabam de entrar em um trem chamado Louca Vida. Fazer Incursões Históricas é perceber o vão que separa o trem da plataforma! O trem segue seu curso pelas noites da eternidade. No mesmo vagão onde você se encontra agora, Ramiro empunha a Bandeira do Divino Espírito Santo. De casa em casa, ao som de tambores, levanta fundos para a Grande Festa! Na feira livre, aos sábados, depois de vender as peneiras, Gonçalo, dançarino que é, exibe-se em dança exótica! É a Vanguarda, o Pós-Moderno! É Boa Nova, Uma Utopia! Boa Nova que, de tempos em tempos, inventa novas palavras, ou nos faz lembrar que todas as palavras podem ser polissêmicas, levando-nos, assim, a um Universo meio Guimarães Rosa! Houve tempos em que Tigresa não era apenas a fêmea do tigre, ou uma exuberante mulher. Estar na Tigresa era estar na pindaíba, duro, sem grana. Grande Vantagem! "Tá" "beba", égua! "Que Charada! "Oia" o "oi" de boi! Mas, para mim, o Grande Classíco sempre foi: Segura o Pio, Liu! É... Como disse nossa querida Clarice Lispector; "A palavra é o meu domínio sobre o mundo!"

Ferro e Fogo! Fé e Caminhada!
É com uma saudade atípica: não daquelas saudades que fazem tudo doer dentro de nós! É uma saudade que nos traz a certeza de que há um fogo que queima dentro de cada um de nós - e é esse fogo que há de endireitar todas as coisas que a vida, tão sadicamente, tem entortado! É com a mais profunda e positiva saudade que me lembro da "Tenda de Seu Ambrósio e Zé Ferreiros! Aquele forno, eternamente aceso, brilhante, vivo, avermelhado! Ferros incandescentes. Seu Ambrósia e Seu José em meio aquela vermelhidão hiperaquecida! Um cenário, para mim, inesquecível e que aquece meus tempos de inverno! Lembro-me da minha - sempre que uma faca ou uma tesoura perdiam o corte, ela logo nos ordenava: "Vá até a tenda de "Compadre Josè", para que ele amole esta faca, esta tesoura! "Quanto é seu José? - É pra "Comadre Fulô? - então não é nada não! Bons tempos aqueles! Viva o Sol! Viva o calor que ainda emana da Tenda de Seu Ambrósio e Seu José Ferreiros!

Salve Dona Maria Ô!
- Quem é Maria Ô??!!- É aquela que mora na Rua dos Canudos - a rua que dá acesso ao Rio de Chico Mendonça, aliás, Rio esse que no final da década de 1970, foi transformado em "Barragem de Dr. Délio Carvalho! Incursões históricas à parte e voltemos ao fascinante mundo de Maria Ô!- Maria Ò! Por que Maria Ô?! Que nome mais atípico, meu caro!- O apelido, belíssimo na morfologia e na sonoridade, diga-se de passagem, deve-se ao fato de que a dita Maria trata a todos pelo cognome "Ô" - Isso mesmo: Para ela todos são "Ô" - desde o prfeito, delegado, passando pelo padre, às comadres, aos vizinhos; enfim, todos, conhecidos seus ou não, são, pura e simplesmente,"Ô"!Salve Dona Maria Ô, aquela que tirou o que as pessoas têm de mais sagrado: seus nomes! Maria Ô, numa atitude docemente subversiva, instituiu um único e definitivo nome para todo vivente: "Ô"!- Bom-dia, Ô! Venha cá, Ô! Quando você chegou, Ô? Não vai botar a roupa p'ra quarar, Ô? Quer comprar ovos de galinha-caipira, Ô?Para Dona Maria Ô as pessoas não têm nomes de batismo. Para ela todos, homem ou mulher, têm um único e definitivo nome - comum a todos: "Ô" - simplesmente "Ô" - e, de volta, seguindo sua cartilha subversiva, todos a tratam de Maria Ô.Minha e Dona Maria Ô eram comadres! minha a chamava, carinhosamente, de comadre Ô - no que era igualmente retribuída, é claro! Comadre Ô pra lá - Comadre Ô pra cá - e assim a vida se enche de uma beleza rara!

Quem Tem Medo de Nossa Senhora da Boa Nova?!
Em Super-Homem, a Canção o Poeta nos ensina que a mulher, com a anuência do homem, tornou-se a verdadeira musa de um poeta chamado Tempo e que o curso da história pode perfeitamente ser mudado por causa da musa, por causa da mulher! Sim, o Tempo é o maior de todos os Poetas; das entranhas desse poeta, essencialmente enigmático, emergiu o magno poema chamado “a história”! A História é a poesia escrita pelas indefectíveis mãos do tempo! E o que é o tempo? Para esse poeta não há definições convincentes! O tempo é relativo e quando, em fim, os portões da eternidade abrirem-se, você saberá que não existe passado, nem presente e nem futuro! Tudo não passava de mera ilusão, para suportar o peso do cotidiano! Eu juro, pelos eternos e infantis olhos do tempo, que nesse dia eu haverei de restituir todas as costelas a todos os homens, sem distinção alguma! Nesse dia, esta Louca Volúpia de agora deixará de ser o algoz que os mantém em eterno cárcere. Não mais haverá reféns e todos vocês serão efetivamente livres! Quando Eu me fiz carne, não se fez necessária a presença do Homem, mas não deu para excluir a mulher dessa empreitada! Sim, a Minha Loucura é mais sábia que a sabedoria humana. Eu, despido no ventre de uma certa judia: começo e fim a um só tempo: mais avançado que a mais avançada das tecnologias – (parafraseando Caetano)! Eu, o Arquiteto do Universo, a buscar a porta que me haveria de levar ao mundo que eu próprio arquitetei! Eu e a mulher! Eu e a porta que, quando aberta, leva-nos ao mundo onde haveremos de encontrar algumas alegrias e muitas aflições. Um mundo onde, mais cedo ou mais tarde, cada um haverá de encontrar seu calvário pessoal, compondo, assim, sua própria lenda! Louvado seja o Pai por essa verdade imutável. A Morte é certa, mas a ressurreição é irreversível! E, assim, a história transcende o óbvio! Sim, nesse contexto caótico, a mãe do menino tem que ser muitas numa única mulher.

Duas das Muitas Mulheres!!!
Dia Oito de Setembro, ela, a mulher, desfila triunfante em andor decorado com palmas de Santa Rita pelas ruas de Boa Nova, nesse momento de festa ela é Nossa Senhora da Boa Nova, mas quando é Sexta-Feira da Paixão, há lágrimas nos olhos e aí a mulher já é Uma Certa Senhora das Dores que sofre com a Saga Sangrenta de um Certo Menino! Nessas horas de extrema teatralidade não superada nem mesmo pelo genial criador de Hamlet; nesse momento de singular teatralidade, todas as costelas são restituídas a todos os homens que, assim, deixam de ser Pobres Mortais e transcendem o óbvio, pois o Cordeiro já fora sacrificado antes mesmo da Fundação de Todos os Mundos e, agora, o tempo não mais existe e são esses os Paradoxos que, de fato, dão sentido a vida de todos os homens!

Quem Nunca Comeu"Oiti"Que Atire o Primeiro Caroço!
O Que é um "Pé de Oiti"? - Definição Léxica: Árvore Rosácea de Frutos Edules.- Meu Deus, mas o que é mesmo um fruto edule?- , meu - tu não sabes? Fruto Edule é um Fruto Comestível - um fruto que se pode comer, sacou?- Ah! Então o "Oiti" não é um Fruto Proibido?- Não! Não é!Até o comecinho da década de 1990. toda a extensão da Avenida Nossa Senhora da Boa Nova era arborizada com frondosas árvores em canteiros centrais. Tais árvores eram carinhosamente chamadas de "Pés de Oiti". Foi debaixo de um Pé de Oiti que muitos de nós começamos a desvendar os mistérios desta Vida Louca. Debaixo de um Pé de Oiti muitos namoros começaram, muitos amores acabaram! Debaixo de um Pé de Oiti muitos tiravam uma soneca após o almoço! Debaixo de um Pé de Oiti muitos falavam "putarias": outro, em sua inocência, catava Oitis Verdes para, sonhando em se tornar "O Rei do Gado", brincar de "curral" - onde os oitis eram os bois: pernas, rabo e chifres feitos com palitos de fósforo espetados no fruto que se assemelha a uma manga, só que em tamanho bem menor! Os Pés de Oiti também serviam para se armar as "gangorras", onde os mais corajosos se aventuravam em "arrojados balões". Debaixo de um Pé de Oiti muitas conversas interessantes foram travadas! Muitos também cairam de um Pé de Oiti e quebraram o braço! Muitos comeram o Fruto de Pé de Oiti: O Oiti - fruto de sabor exótico. Comer Oiti era visto por muitas mães como uma atitude rebelde, subversiva. Não era raro ouvir de uma mãe ao ver seu filho saboreando um Oiti:- Menino, por acaso você está passando fome, traste - pra se empanturrar de Oiti? Eu, até hoje, ouso guardar Oitis Maduros em meus porões existenciais, para saboreá-los nos momentos de carência! Quem Nunca Comeu Oiti Que Atire O Primeiro Caroço! Foi saboreando um Oiti Maduro que muitos de nós descobrimos a vida!...Onde Foram Parar Os Pés de Oiti?!

Boa Nova - Anos 80!
Fervia o Rock Nacional - a trilha sonora oficial do "calçadão" - sonhos, buscas, amores, ódios, esperanças, ciúmes, fé, melancolia, alegrias outras, revoltas! Todas as Revoluções por Minuto! Diretas Já! Éramos Todos Exagerados e Tudo Explodia em Forma de Teatro no Palco do Salão Paroquial! Os Embalos de Sábado à Noite Aconteciam na Inesquecível Boate de Tuíta!

Feiras Livres! Livres Negociações!
As Revoluções Industrias arrancaram o Homem do Campo, trazendo-o para as cidades! O Homem criou o seu espaço! Sem um espaço não temos como, efetivamente, existir! Nesse espaço, tantas vezes cuidadosamente construído, que se dão as negociações, as trocas! É nesse espaço, cheio de belezas, conflitos, encontros, feiúras, prejuízos, lucros e rupturas que buscamos satisfazer nossas necessidades, primeiras e as fabricadas tantas vezes pelas nossas próprias almas carentes de novidades para que possamos sobreviver ao monótono! As cidades, como as conhecemos hoje, creio eu, são produtos diretos das ditas Revoluções Industriais! O comércio ferve, o dinheiro é o sangue que corre pelas diversas veias das Cidades, fazendo o povo delirar! É o grande carnaval da existência, onde tudo já é bem de consumo – e isso não é de todo ruim! Tudo é uma grande feira: Feira de Automóveis, Feira de Cosméticos, Feira de Moda, Feira do diabo-a-quatro! Lembro-me das Feiras Livres, (não sei por que me fascinam) Gostaria muito de ir a uma Feira Livre em Caruaru! Qualquer cidade que se preza há de ter feira livre, sobretudo as cidades do interior, onde os remanescentes das “roças” (porque quase todos já se mudaram pras cidades) vêm negociar os produtos que a terra ainda é capaz de produzir! Riacho das Traíras, Goiabeira, Tarugo, Tanquinho, Gigante, Duas Irmãs, Riacho de Areia, Pé da Ladeira... De todos esses vilarejos, dentre tantos outros, surgem os mercadores sabáticos, ocupando as feiras livres, seus espaços, onde o tomate é de uma vermelhidão assustadora e a banana-da-terra traz toda a sustância necessária para a labuta do dia-a-dia! Mercadores Sabáticos! Gonçalo, além de vender suas peneiras, também presenteia o povo com sua dança exótica, que ele aprendeu ninguém sabe onde! São todos, também, Mercadores de Ilusão! Tomates verdes e maduros, dinheiro, sangue a correr pelas veias do tempo que não pode parar! Agora, tudo é uma Grande Feira Livre, onde se dão as Negociações e Moeda de Troca faz-se imprescindível!

terça-feira, 29 de julho de 2008

Minicontos Outros! (Paulo Neuman)


Lenda Urbana!
Veste-se com sacos pretos de lixo - figurinista de si próprio e roteirista e diretor e principal ator de um longa-metragem sem trilha sonora! Vive a perambular pelas adjacências da Praça da República - barba e cabelo há muito não cortados - visual que me leva a crer que ele é o verdadeiro dono do Centro Velho da metrópole. Ele é o que se pode chamar de uma lenda urbana. Ele é Real! Indago-me quem são seus pais, seus irmãos...! Sempre que eu o vejo, pergunto-me se há neste mundo alguém capaz de amá-lo!

Nostalgia
Vestido longo e preto, decote que nos faz imaginar quão fartos são seus seios, aliás, bastante firmes para sua idade! Os olhos, incrivelmente verdes, trazem charmosas rugas que nos levam a uma doce imersão na história! Ali, no lendário Beco das Garrafas (Geograficamente o espaço ainda está lá) – Ela, essa menina-senhora, chora e chora e chora a ausência da Bossa Nova no Beco que ela jura ainda ser o Beco das Garrafas!

Despedida de Casado!
Secretamente, esperta que é, conseguiu um Trabalho de Vendedora nas "Casas Bahia" – experiência ela tem – pois já teve seu próprio negócio lá no Recife! Chegaram os "Tempos das Vacas Magras" e, já aqui em São Paulo, amigou-se com um "jovem senhor" – porteiro de um prédio nas adjacências do Arouche! Um homem cheio de fantasias e caprichos um tanto quanto exóticos – segundo ela! ...Certa noite, ao voltar do trabalho, o "jovem senhor" deparou-se com armários vazios, nenhum vestido sequer a "ingrata deixou". Agora, com trabalho fixo, ela não mais precisa satisfazer as vontades de um "jovem-senhor muitíssimo estranho"! Agora, feliz da vida, ela trabalha nas "Casas Bahia" e nos finais de semana "se acaba" nos pagodes da Vila Joaniza!

Olhos e Máscaras Negros!
Tiago, olhos negros como uma jabuticaba bem madura! Na Igreja de São Judas, surge a noiva com vestido alugado, bela e dissimulada. Tiago, masoquista, exige de si mesmo que os perdoe! No altar, Charles, cínico, espera pela bruxa travestida de princesa medieval! O baile é à fantasia, onde até Veneno Mortal será servido!

Fuga
Ela acordou bem cedo – escovou os dentes amarelados, tomou café, disse bom-dia a ninguém e partiu ninguém sabe pra onde! Espero poder encontrá-la um dia qualquer, numa esquina qualquer! Tomaremos um café levemente amargo, enquanto a cidade ferve em ritmos ultrapesados. Deus queira que assim seja!

Feliz Ano-Novo!
São Pássaros em Revoada - buscam o tão sonhado Porto-Seguro. Juro que, logo depois do Carnaval, juntar-me-ei a Eles - esses Pardais Transcendentais! Agora, sem alvoroço, retiro-me, à francesa! Sigo em direção a Estação Júlio Prestes, onde um Trem-Amigo haverá de levar-me a Osasco. Ainda trago no coração incansável a certeza de um Feliz Ano-Novo; mas, agora, faz-se necessário que mil anos-luz me separem dos Pássaros em Revoada! Hoje, perco-me - para que o Amanhã me encontre Inteiro e Feliz e Eternamente Vivo!

A Dama da Noite (Antes, Durante e Depois)
Ah! Ela é assim mesmo: Com seu longo-decotado-vestido-vermelho; "perfumadamente" cheia de segundas-intenções, entra no elevador como quem nada deseja. Quando menos se espera, ela dá o bote! Depois da mordida fatal, dos lábios docemente cínicos e vermelhos e carnudos e tão-batom escapa a clássica pergunta:- Foi bom p'ra você também, meu bem?! - Assim, num piscar-de-olhos, ela faz mais uma vítima!

Eu, Tu e a História!
Era uma vez um cabrito montês!Acostumado às escarpas existenciais, obedecendo o instinto de sobrevivência, tornou-se bicho arisco - capaz de driblar as irregularidades dos montes, fazendo-se em tudo mercador e egocêntrico e mercenário: um cabrito montês. Mas, vencendo espaço e tempo, num doloroso mergulho no "eu" mais subterrâneo - em meio a suor, lágrimas e sangue, transmuta-se em Cordeiro Sacrificado antes mesmo da fundação dos mundos: Morte e Ressurreição a um só tempo - a mais avançada das tecnologias! Em bandeja de ouro, a Civilização Judaico-Cristã e era uma vez um cabrito montês. Agora, divinamente cheio de grandes propósitos, um Moço Presente em Corpo Físico e com guarda-roupa Prada: Um disfarce fashion apenas. Sim, porque agora também somos a civilização on-line e não mais haverá cabras no cio, pois não mais se levará adiante aquele velho código genético! Agora, um homem digital: Recriação da Humanidade - Nós e ELE para sempre juntos e misturados: Missa de Corpos-Vivos-Presentes e era uma vez um cabrito montês!!!!

Assim meio "Dona Doida"
Calça jeans hiperapertada, blusinha tomara-que-caia, jaqueta de couro, passos apressados e cabelo solto ao vento! Feito uma "dona doida" pós-moderna, segue pela avenida Paulista. Para sua surpresa, no vão do Masp, aos beijos, Cadu e Cris! Pobre Drica!

Uma Certa Ana
11 de Agosto de 2007, faz muito frio na metrópole. Agora, uma certa Ana, da Vila Madalena, segue, nesta tarde fria, para o Largo São Francisco, onde há festa: aniversário da Faculdade de Direito São Francisco. Na sacada do monumental edifício neocolonial, um coral solta a voz com "Cálice" - de Chico Buarque. Antes, no palco principal, o pós-moderno Tom Zé mandava todos irem tomar no verbo - filhos da letra que são; enquanto Ana, extraordinária em sua solidão, remexia os quadris - como só as deusas sabem fazer!

Fragmentos Utópicos
1968, o insano e bestial AI-5, furioso, devora quaisquer utopias! Com olhos incrivelmente verdes, ele, depois de haver lido "O Capital", torna-se o revolucionário líder estudantil! Exilado na cinzenta Londres, escreve estranhas poesias! Passaram-se os anos, veio a anistia, mas ele, hoje com 59 anos, continua a passear pelo subúrbio londrino, sempre à espera do próximo temporal e sem sentir saudade do sol inclemente que ainda aquece as utopias no País do Carnaval!
Cecília
Manhã fria de um sábado qualquer, Cecília, apressada, toma café. No metrô, a folhear uma revista de moda, segue para o Bom Retiro, onde pretende comprar um vestido que lhe caia bem: Cecília está acima do peso e, Cinderela que é, sonha com um Príncipe de Academia, beijando-lhe a boca carnuda!

Plínio e Olga!
No centro velho da metrópole, está a Galeria Olido, onde, na sala de vídeo, apenas Olga assiste a um documentário sobre dança contemporânea. Silencioso, sento-me ao seu lado. Terminado o vídeo, pergunto-lhe sobre Plínio - obtenho uma resposta seca:- Estamos separados. Agora eu sei o que todos já sabiam: Plínio é um traste que só sabe peidar e mentir - sentenciou Olga, com o coração visivelmente ferido.

Vestido de Noiva!
Estávamos eu e Gabriela, como sempre, jogando conversa fora - pois, como já foi decidido pelos Puritanos, somos apenas dois vagabundos que, feito Almas Penadas, vagam pela imensidão da Metrópole - em busca de "sarna pra se coçar". De repente, em nossa frente, eis que surge Túlio com uma mala azul, onde jaz o Vestido de Noiva que seria usado por Maria Rita. Dois dias antes da cerimônia, lúcida que é, desistiu de casar-se com Túlio! Pobre Túlio, que nunca regulou muito bem, agora vive a vagar de bar em bar, carregando a tal mala, em busca da fêmea que queira usar o vestido recusado por Maria Rita. Mas eu, sinceramente, duvido que alguma mulher, em sã consciência, queira casar-se com Túlio!
Relativismo Cultural!
O Amor, este louco fenômeno cultural, em todos os seus desdobramentos, agora me parece quase nada, diante destas contas vencidas! - Exclamou Maria Clara, com o olhar fixo na fotografia de Paulo Luís, seu marido desempregado e bêbado!